Bloquear o Discord no Brasil resolveria o problema? Especialistas alertam para riscos
8/9/20263 min read


A possibilidade de bloquear o Discord no Brasil entrou no centro do debate sobre segurança de crianças e adolescentes na internet. A discussão ganhou força depois que a primeira-dama Janja da Silva defendeu que a plataforma fosse retirada do ar no país após a morte de uma adolescente de 13 anos, em Mato Grosso do Sul.
Segundo as investigações citadas pela BBC News Brasil, a adolescente morreu em 22 de julho, em Naviraí (MS), após supostamente ser coagida por outros usuários durante uma transmissão pela internet. Cinco adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, foram apreendidos, e um jovem de 18 anos foi preso durante a investigação.
A apuração aponta que Discord e Telegram teriam sido utilizados pelo grupo para atrair meninas, disseminar discursos de ódio, promover radicalização e estimular comportamentos violentos.
Janja pede bloqueio do Discord
Durante cerimônia no Palácio do Planalto na quinta-feira (7), Janja defendeu publicamente uma medida mais dura contra a plataforma.
A primeira-dama afirmou que o Discord deveria ser bloqueado no Brasil e citou diretamente o caso da adolescente de 13 anos.
O secretário Nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça, Victor Fernandes, informou que houve um pedido policial para suspensão da plataforma, mas a solicitação foi negada pela Justiça.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, também anunciou que solicitou ao Ministério da Justiça informações sobre o caso para avaliar a preparação de uma ação civil pública envolvendo o Discord.
Bloquear a plataforma resolveria?
Apesar da gravidade das denúncias, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil alertam que simplesmente retirar o Discord do ar pode não solucionar o problema.
Uma das preocupações é que grupos envolvidos em atividades criminosas migrem para outras plataformas, inclusive serviços menores ou hospedados no exterior, nos quais a identificação dos responsáveis e a cooperação com as autoridades brasileiras podem ser ainda mais difíceis.
Nesse cenário, o bloqueio poderia reduzir temporariamente o acesso a uma plataforma específica sem necessariamente eliminar as comunidades responsáveis pelas práticas criminosas.
O desafio, portanto, não envolve apenas o Discord, mas a capacidade de identificar redes criminosas, responsabilizar seus integrantes e impedir que crianças e adolescentes sejam atraídos para esses ambientes.
Proteção de crianças na internet preocupa
Os números nacionais reforçam a dimensão do problema. Dados da SaferNet Brasil mostram que o país registrou 63.214 denúncias únicas envolvendo imagens de abuso e exploração sexual infantil em 2025, a segunda maior quantidade desde o início da série histórica da organização.
A entidade mantém uma Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos e atua há anos no enfrentamento de violações de direitos humanos na internet. A SaferNet também destaca que a complexidade desses crimes exige medidas permanentes de prevenção, educação e conscientização.
O problema também não está restrito a uma única plataforma. Levantamentos anteriores da organização já identificaram redes envolvendo abuso e exploração sexual infantil no Telegram, por exemplo, demonstrando como grupos criminosos podem ocupar diferentes ambientes digitais.
Discord afirma possuir mecanismos de segurança
O Discord mantém ferramentas próprias de moderação e punição. Segundo informações da própria plataforma, usuários que violam suas regras podem receber restrições e, em situações consideradas graves ou envolvendo violações repetidas, contas e conteúdos podem ser removidos permanentemente.
O debate no Brasil, porém, passa justamente pela discussão sobre se as ferramentas utilizadas pelas plataformas são suficientes para impedir a formação e atuação de comunidades que praticam crimes ou incentivam comportamentos violentos.
Debate deve continuar
O caso coloca novamente em discussão a responsabilidade das plataformas digitais sobre conteúdos e comunidades existentes em seus serviços.
De um lado, há pressão por medidas mais rígidas diante de crimes envolvendo crianças e adolescentes. Do outro, especialistas alertam que bloquear uma plataforma inteira pode atingir milhões de usuários sem necessariamente eliminar os grupos criminosos, que podem simplesmente migrar para outros serviços.
O desafio para autoridades e empresas de tecnologia passa, portanto, por encontrar mecanismos capazes de identificar rapidamente atividades criminosas, preservar provas, colaborar com investigações e aumentar a proteção de crianças e adolescentes antes que situações graves aconteçam.
Fonte: BBC News Brasil, SaferNet Brasil e informações públicas do Discord.
